UBU (contributos dramáticos)

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O papel desses teatros ditos “à côté” não acabou ainda, mas como já duram há alguns anos toda a gente deixou de os considerar loucos e passaram a ser o teatro habitual de uma elite. Dentro de mais alguns anos há-de atingir-se a plena verdade no que se refere à arte, ou então (verdade às vezes é sinónimo de moda) descobrir-se-à uma verdade diferente e esses teatros Passarão a ser vulgares no pior dos sentidos se não se lembrarem de que o essencial para eles não é o serem mas sim tornarem-se”.

Alfred Jarry

É costume afirmar que se instaurou um clima de conflito nas artes em geral e no teatro em particular com a divulgação do Manifesto Surrealista de Breton em 1924, no entanto esse clima de “choque”. de “provocação” – sobretudo no campo teatral – remonta (senão antes) à apresentação de “Ubu Roi” em 10 de Dezembro de 1896. O autor, Alfred Jarry, contava na altura 23 anos de idade.
“Ubu”, o grotesco personagem que se torna rei de uma “Polónia” depois de “sarrafaçalar” e lançar no “caldeirão” o rei Ladislau (assim como todos os nobres que se lhe oposeram), torna-se figura central da maioria das suas histórias dramáticas.
“Ubu” é o símbolo de triunfo do ridículo, do absurdo e do irracional; “Ubu” é ainda o triunfo da anarquia – Ele é desconcertante; sobe a uma montanha, muito alta, para que as suas orações não tenham um percurso muito longo a caminho do céu …

Jarry preconiza a simplificação ou a supressão dos cenários, a adopção de uma máscara por parte dos actores, de forma a acabar com efeitos momentâneos e sobretudo para expressar o carácter eterno da personagem. Jarry atribui ainda um papel completamente novo à iluminação cénica e sugere que cada actor adopte uma voz especial – a voz do papel – que, segundo o próprio autor, provoca o “desencarnar”  da Personagem.

A proximidade entre Jarry e Dada reside na atitude.  A atitude perante a vida e a atitude perante a “coisa” arte.  Porem, para o movimento surrealista Jarry é uma “bandeira” que se agita com um outro significado; Jarry e, para eles, um pré-surrealista e o seu “Ubu” e, sobretudos expressão do inconsciente – a encarnação magistral do eu Nietzscheano e Freudiano que indica o conjunto de forças ignoradas, inconscientes e reprimidas, como vira a dizer, André Breton na sua Antologia do humor Negro.

O surrealista português, Antónío Maria Lisboa, atribui a Alfred Jarry uma dimensão Poética/sonhadora/mística.

“Jarry sabe que o sonho é este que vivemos de forma mais sábia: Dormir acordado, estar acordado quando dorme, viver responsavelmente o sonho, não desculpar, não se desculpar, não ter razões nem dar razões, e acontecer com a precisão sucessiva do que acontece é o traço de união…”

António Maria Lisboa

“Ubu Roi”, volta a cena em 1922 pela mão de Lugné-Poe.  A reacção do público foi negativa mas apesar do fracasso o grupo de Breton recebeu o espectáculo com entusiasmo.
Jarry foi ainda referência para o grupo constituído por Antonin Artaud, Roger Vitrac e Robert Aron que baptizaram o seu teatro com o nome deste poeta “maldito” desaparecido fisicamente em 1907.

“Tout est évidemment bon à mettre au théâtre si l’on consent encore à appeler théâtre ces halls encombrés de décors d’une peinture odieuse, construits spécialement, ainsi que les piéces, pour (biffé: L’infinie médiocrité de Ia foule) la multitude.  Mais cette question une fois tranchée, ne doit écrire pour le théâtre que l’auteur qui pense d’abord dans la forme dramatíque. On peut tirer ensuite un roman de son drame, si l’on veut, car on peut raconter une action; maís la réciproque n est presque jamais vraíe; et si un roman, étaít dramatique, l’auteur l’aurait d’abord (biffe : pensé) conçuu (et écrit) sous forme de drame.”

Alfred Jarry

Talvez seja precipitado afirmar que Jarry foi um protodada ou um pré surrealista.  Mas Jarry será sem dúvida, pelas suas propostas teatrais, um marco histórico do novo teatro, de uma nova estética.  As suas considerações visam, a escrita de teatro e também questões de ordem teatral e cénica.

“O actor troca a cabeça (e devia ser todo o corpo) pela personagem.  Diversas contradições e extensões faceais dos músculos podem produzir expressões, jogos fisionómicos, etc.  (…) O actor deve trocar a cabeça, com uma máscara, pela efígie da personagem, a qual não terá como na antiguidade carácter de choro ou riso (coisas que não são caracteres) mas sim o carácter da personagem…”

Alfred Jarry

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